Andavam caçadores pelas redondezas e a linda cabreira foi vista por um cavaleiro, também ele jovem, bonito e encantador.
Deslumbrado com a sua formosura, o cavaleiro parou, admirou-a e, com um grande sorriso, disse-lhe:
- Olá linda cabreira! Estou seduzido pela tua beleza. Os teus cabelos são como raios de sol, o teu olhar tem o brilho das estrelas e a tua doçura o reflexo do luar.
Ela sentiu o mesmo encanto pelo cavaleiro e, envergonhada, respondeu-lhe:
- São os vossos olhos que me vêem assim, Senhor! Não mereço tanta admiração e o que me dizeis faz-me corar.
Vencido pela atracão que por ela sentia, o cavaleiro desceu da montada e deixou a caçada.
- Ouve, por ti, e só por ti, deixo os meus amigos e fico nesta serra só para te adorar!
E foi assim que começou, entre eles, uma linda história de amor.
O cavaleiro e a cabreira esqueceram-se dos dias. Ali, sozinhos e felizes, sonharam, brincaram e fizeram juras, como se só eles existissem no Mundo.
Mas, um dia, o cavaleiro sabendo que tinha trabalhos importantes a fazer e assuntos urgentes a tratar viu-se obrigado a partir.
- Ouve, minha princesa, eu vou ausentar-me, mas voltarei o mais depressa possível. Já não posso nem quero viver sem ti.
Suspirando de tristeza, a cabreira apenas confessou:
- Nem sei sequer quem és, nem tão pouco como te chamas.
O cavaleiro sorriu e abraçou-a, procurando dar-lhe confiança.
- Pouco importa, sou o homem de quem tu gostas e que também gosta muito de ti.
Mas digo-te que sou o Conde de uma vila próxima e em breve virei buscar-te para o meu palácio. Espera por mim!
Como numa jura, ela prometeu:
- Esperarei até ao fim da minha vida.
E esperou...
Os dias passaram, uns atrás dos outros, e a cabreira aguardava, impaciente, o seu amado. Recordava os dias felizes vividos com ele e não o vendo chegar ia entristecendo. Então, pensava:
- Preciso de o encontrar, de o ver, abraçá-lo, brincar e sonhar de novo... nem que para isso tenha de me transformar numa ave para sobrevoar as vilas mais próximas.
O tempo corria e o cavaleiro não voltava. Cada vez mais triste, quase morta de cansaço a cabreira começou a desesperar.
As lágrimas inundaram‑lhe os olhos e chorou.
Chorou tanto, tanto, que as lágrimas foram formando um rio. As suas águas, que eram a dor e a mágoa da linda cabreira, percorreram as terras das redondezas.
Para ajudar este rio, a encontrar o cavaleiro, outros, mais pequenos, vieram ao seu encontro.
Da margem direita chegou o rio Pele que percorreu 20 quilómetros, o Pelhe que andou outros tantos e o Este 52.
Da margem esquerda ocorreu o rio Selho que caminhou 21 quilómetros e o Vizela 47, trazendo consigo os rios Ferro e o Bugio.
Todos juntos, rios e riachos cobriram uma área de 1390 quilómetros quadrados. Correndo de nordeste para noroeste, o rio de lágrimas calcorreou 94 quilómetros.
Com os rios mais pequenos banhou terras de Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, Fafe, Guimarães, Vizela, Santo Tirso, Famalicão e Trofa, espraiando-se em Vila do Conde, a terra do cavaleiro que jamais foi encontrado.
O povo comovido e entristecido com a malfadada história da jovem e linda cabreira, não quis que ela fosse esquecida. Assim passou a chamar a serra onde a cabreira e o cavaleiro se conheceram - Serra da Cabreira - e ao rio de lágrimas - Rio Ave - já que ela queria ser ave e voar.
Um dia, se puderes, visita a Serra da Cabreira e faz o percurso do Rio Ave. Quem sabe... talvez ainda descubras as lágrimas da linda Cabreira.
LENDAS DE PORTUGAL ILUSTRADAS, A lenda do Rio Ave e da Serra da Cabreira, ilustrações de Sarah Pirson, Texto de José Marco (existente na BMRB e no dossiê Ler+Mar: Da Penha vê-se o mar”)
Poema escrito a partir do texto-fonte
Lenda do Rio Ave e da Serra da Cabreira
Uma cabreira chegou
Elegante e formosa
Chegou vinda da Galiza
Uma terra maravilhosa
Num dia em que caçadores
Andavam na redondeza
Foi vista por um cavaleiro
Que elogiou sua beleza
O cavaleiro, logo ali
Se apaixonou por ela
E foram vivendo felizes
O cavaleiro e a bela
Mas, certo dia
Por ter coisas para tratar
Parte o cavaleiro
Tinha que ir viajar
A pobre cabreira
Esperou, esperou…esperou
Mas, o cavaleiro
Nunca mais voltou
De tanto chorar
Formou-se um rio
As suas águas eram a dor
As lágrimas que caíam em fio
E eis que algum tempo passado
De o procurar parou
Ficou triste e só a cabreira
Nunca mais o encontrou
O povo comovido
Com esta triste história
Quis que para sempre
Ela ficasse na memória
À serra deram o nome
Da cabreira apaixonada
É uma bela terra
E continua encantada
Eya,
Gonçalo Duarte e João Pedro, 4º ano, Pegada